Talvez a parte mais tangível e cruel do apego seja o quanto de energia lançamos e investimos em uma relação, ou em uma tentativa, colocando à frente, de forma porém mais inconsciente, nosso anseio por retorno e reciprocidade. Principalmente quando houve uma forte sintonia. Nada mais humano e natural, quando se tem um objetivo e portanto quer-se perseguí-lo obstinadamente. Quem nunca teve medo de perdas, ou reviver experiências infrutíferas anteriores? Que o digam os ciumentos e possessivos. Uma tentativa malograda tem a lembrança do quase, e, muito embora tratando - se de tentativa, ela nos revive um gosto de perda. Asssim são os inconformados, e inconformistas por excelência. Querer e tentar mudar o que não foi consumado é tão nobre quanto ingrato. O sentimento de extrema urgência consome o inconformado. O quase, sob as sombras da angústia, equipara-se à perda. "Quando será?" " Até quando...?" Profusão de sentimentos...medo...incapacidade de perder...extremismo do tudo ou nada...angústia do imediatismo...obstinação opor esta última desencadeada. "Quero agora e quero pra mim." Pensamos: "felicidade é pra ontem". É. A vida é um caminho incerto, tortuoso, tormentoso, e de extensão que desconhecemos. Tudo isso já é por demais angustiante. Surge a necessidade de despertar e educar mente e coração para o aprendizado de que felicidade é um meio, não um fim...acredito que temos dentro de nós essas respostas. O difícil é saber onde, dentro de nós, elas estão. Desfazer velhos nós sempre reencontrados, e internamente reconciliar-se. Humanamente difícil também, é reagir lembrando que a proporção de uma frustração é diretamente proporcional ao tamanho da expectativa gerada. Mas convém lembrar uma oportuna distinção: expectativas x objetivos. Humanamente impossível,talvez, reagir sem que frustrações geradas tenham impactos emocionais consideráveis. Entre querer, e esperar, bem como entre querer e ter, há aquela distância de que sempre se esquece, inconscientemente. Ao tentar não significa que mudaremos toda e qualquer circunstâncias, muito embora a quebra da inércia seja o impulso para que vidas reajam e se transformem.
Quem genuinamente se apaixona, se entusiasma e esquece-se de que o maior tropeço disso é acreditar que mudaremos o mundo, ou nos mudaremos. Difícil é a tenra e flamejante paixão aceitar - e não "entender" - que as ilusões de todo um encantamento, um deslumbramento, não devem ocultar a necessidade, de forma realista, de conhecer o outro, e atentar para sinais contidos nas entrelinhas. Difícil, sim, porque em meio à chatice cotidiana queremos algo mágico, que faça a diferença, que ao olhar acrescente brilho de adicional felicidade...paixão romantismo que tem também o condão de fazer,como nunca na vida, sermos vistos de forma incomparavelmente doce e especial...quiçá como heróis...talvez como num conto de fadas...quando querer agradar e mudar-se fere mais do que se imagina. Aquela sensível alma certamente fará de tudo para conservar ao máximo possível a atmosfera de romance, envoltório de toda uma paixão, que naturalmente caminha na corda bamba, entre o risco de expirar em sua fulminância, ou prosseguir e perseverar no amor, experimentando também dos espinhos deste. Desconcerta, gera sentimento de impotência, e simultaneamente conforta saber que, como tudo na vida, nossos poderes são limitados, e não são diferentes quanto ao mudar ou interferir em determinada investida. Perdemos o senso de que não devemos mudar, apenas melhorar se for o caso. Não temos o controle, principalmente quando certas conquistas são bilaterais, e apenas a vontade de um dos pares não é suficiente para que de uma mera situação nasça uma relação.*
Mas sempre haverá o dia em que estaremos suficientemente fortalecidos para o libertador adeus. Que não é o fim. Prefiro pensar como um recomeço. Uma nova chance para nós. Assim como a morte não é o fim, mas o início de uma nova fase da vida. Confortará a chegada do momento em que perceberemos não pela pura razão (quanta ingenuidade) - mas porque o coração volta a si, cansado de sofrer, e nisso com ela se harmoniza - que criar e escrever nosso destino não necessariamente significa ter tudo que queremos. E que o apego perde ainda mais sua razão de ser por representar mais e mais algo que se distancia no passado. Sendo fato de que o mais difícil em tudo isso seja efetivamente despertar que não temos o poder de controlar tudo, como fruto de nossas limitações.
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