sábado, 31 de outubro de 2009

Goodnight Song





"But nothing ever changes unless there's some pain."

Assiste inigualável razão a Nietzsche quando afirma que sem a música,a vida seria um erro.

Todos que me são mais próximos sabem quanto eu sou apaixonado pelo duo Tears for Fears. Não apenas pela voz única, vibrante e maravilhosa do Roland Orzabal,como também - e sobretudo - pelas letras,e cada mensagem extraída daqueles por vezes psicodélicos versos. Um lirismo deveras original,de tal forma maravilhoso que dispensa palavras. Quiçá minha canção preferida. Aquela que não escolhi como tema pessoal em cerimônia de formatura, em razão de mnha "apropriação" e identificação pessoal por sua incomum capacidade de me despertar um sem-número de emoções. Pessoalidade - tão intensa - pela qual ironicamente preferi não revelar publicamente minha predileção,em uma paranóia pessoal de que se pudesse mensurar,a emotividade comum entre a pessoa(eu) e a "carga dramática" da canção.Ignorei minha própria subjetividade? Acredito que não. Pensei nos métodos de que servem recursos humanos,a exemplo da análise grafológica,comparativamente, para delinear perfis pessoais. Escondi-me. Me pergunto até hoje porquê. Mas verdade é que sentimentos são únicos e intransferíveis, e nossa atribuição de sentido e emoção à música é um tanto personalizada, mesmo que plasmada numa linguagem um tanto "universal." A riqueza deste universo ao mesmo tempo que povoada de subjetividade, por excelência,
parece remeter a algum ponto de identificação entre os sujeitos. Talvez resulte em mais rotulação do que identificação. Mas "revelar-se", fazer-se de alguma forma conhecer por uma platéia significantemente numerosa, e na qual, por isso mesmo, as mais diversas são as intenções e impressões, é um inegável desconforto. E não são todos que têm de me conhecer mais densamente.
Exageros à parte,sustentando-me na divisa que deve haver entre o públcio e o pessoal, decidi por outra música.Se transmiti alguma marca pessoal inexata, agradeço-me o prazer da privacidade.Sabia mais com quem não compartilhar do que com quem compartilhar, conquanto estivesse sob o olhar de outros tantos anônimos. E o sentimento de posse sobre uma mera predileção pessoal servia simultaneamente de véu.

Nem preciso mais a esta altura, portanto,informar a autoria da canção que tem por nome o mesmo título desta postagem...
mas é tão digna de rememorações a recorrência e o efeito reflexivo e sentimental da música que me vejo obrigado, com tanto prazer e entusiamo - tal qual criança feliz - e ao mesmo tempo desconcerto, a falar de como me vejo envolvido na melodia e na letra, principalmente...uma singular profusão de sentimentos, um misto de emoção,melancolia,esperança e gratidão pelas "dádivas" e bons momentos vividos.E por isso tudo que se vive e associa à nossa "trilha sonora" se transforma em indeléveis minúcias em que nos deleitamos.

Transições da embriaguez para a sobriedade nem sempre são apenas simples mudanças de estado de espírito. Conveniente e sabiamente minimizamos percepções,mais concretas do que abstratas, que se
aguçam e intensificam naquela mudança de ânimo. A vida, a velha e ingrata vida nos mostra nova e magnificamente a cruel e ingrata oposição entre os carnavais e orgias particulares, e nossa inglória realidade,trazendo à tona as angústias de sempre.
Assim se repetem anoiteceres e auroras.
Crianças perpassadas por todo tipo de sentimentos em um único momento,em uma sinfonia de magnitude a embalar infinitas sucessões entre dias e noites, luzes e trevas.
Em um minuto aquela melodia se transforma em sinfonia e nos atravessa,como turbilhão que em 60 segundos vemos passar todos os momentos da vida conexos com aqueles sentimentos, aquelas sensações. Não, não é o déjà-vu, mas um efeito personalizado, conforme nossa história,engrandecida a cada momento pela repaginação daquela sinfonia.

Não devemos,então,ser gratos pelos momentos dionisíacos, conquanto prosaicos?
Estaríamos apenas complicando simples hábitos do ser humano, com uma inútil reflexão sobre as faces mais sombrias da tensão entre os altos e baixos existenciais?
Seria fragilidade ou autopunição insistir em mergulhar nas divagações acerca desta antítese?
Não tenho a menor pretensão de ter resposta para tudo, já que aquela filosofia construída em torno de nossa vivência ensina-nos,pela dor,que não se deve buscar resposta para tudo.
Estamos, então, diante de uma "eterna dança"...por vezes receosos, por vezes desafiando o perigo.
E continuam os dias e noites a sucederem-se infinitamente. Uma "boa noite" é o que queremos, com .
uma terna canção a embalar-nos,confortar-nos e lembrar quão especiais somos.E por quê não podemos por momentos,com as pessoas certas e gratas,querer colo e chocolate?

Mas temos medo do que não podemos explicar e controlar,e velamos tal receio com o manto da maturidade, como se estivéssemos a dizer que enquanto seres "racionais",a emoção pudesse ser domada por simples decisões íntimas de não sucumbir à tensão.
Confundem-se a complexidade própria da psique humana e a intensidade com que vivemos.
E esta intensidade não deixa escapar qualquer detalhe. E não se mede por valorações, muito embora estas se façam tão presentes como pano de fundo, por nos dar aquele sentido específico do viver.

Cheguei a admirar,na minha tola imaginação,homens estóicos e impassíveis.Como se tal atributo se igualasse a heroísmo.Seria possível esse nada sentir?
Não sei e não pago para ver onde desembocará a complexidade de uma discussão assim, mas sou contrário à teoria de haver meramente homens fortes e fracos. Sem querer ser por demais simplista,e talvez já sendo,acredito apenas em canalizações diversas de uma energia,ora impulsionadora no momento certo, ora destrutiva no momento errado.

Largando um pouco dessa lenga-lenga psicológica (e um quê psicótica): estamos sempre à espera daquela "mágica" que nos libertaria de nós mesmos - crime capciosamente perpetrado pelos
ranços de uma configuração cristã de fé. Queremos mudança,mas a condição humana parece exigir a todo tempo uma sobrenaturalidade,fora de nosso alcance e poder, subjacente nesta transcendentalidade divina a impotência ínsita ao ser humano.Sabemos quão limitados somos,
e as derivas a que estamos suscetíveis.Concordo.Mas até que ponto?
Há a fé cristã e a fé existencial (pedindo perdão a Sartre),esta que entendo por edificada em vivências e vitórias pessoais, e forjada nos extremos descaminhos e descalabros da vida.
A nebulosa concepção de fé cristã parece querer nos retirar o poder de reinvenção, e desmerecer e apagar a intensidade com que vivemos. Mas isso não me interessa.

Querendo fugir de mais um labirinto existencial,e embalados pelo mágico poder dessa música que toca em nossa mente, em vitórias, tragédias e feitos prosaicos,sentimo-nos gratos, quicá heróicos, pela
dor e delícia (permita-me,Caetano) de ser o que somos?
A mesma música que sempre nos acompanha lembra também que,se devemos tornar no que somos,
ainda que por vezes a vida e a sorte pareçam estar contra nós,não devemos prescindir de quem ao nosso lado faz história. Teria de ser diferente? Não quero saber. Sou romântico demais? Talvez sim, mas não a julgar por tudo isso em que tenho pensado. Não podemos sucumbir aos amores e relacionamentos líquidos. Recuso-me. Vivo. Quebro a cara. Mas a noite passa, e novamente é dia.
Devo ter coração e não me render.

Crucifiquem. Escarneçam.Apedrejem.

Boa noite para todos...porque o dia sempre virá. Esperança é algo que pode dar medo. Mas o Sol está por cima da escuridão.

Ainda que haja noite no coração, vale a pena sorrir para que haja estrelas na escuridão.
(Clarice Lispector)